É quase meio dia, faz quarenta graus, e não encontro uma sombra para estacionar o meu Fusca. Logo que desço do carro, uma tempestade de poeira vermelha bate no meu rosto, e lá ao longe é possível enxergar um homem trabalhando em meio a fumaça tóxica.
Assim que me deparei com o lixão de Paranaíba, pensei que o cenário poderia ser bem pior, só não o é porque parte do lixo acumulado da cidade está sendo soterrado pela terra vermelha do local. Mas, se o lixão possui suas artimanhas para esconder e reinventar-se, o mesmo não se pode dizer das pessoas que trabalham no local. Há homens e mulheres recolhendo, selecionando e queimando o resto do que compramos. Não é um local para os fracos, muito menos aos que se preocupam com a estética ou a saúde, já que o local exala fumaça tóxica praticamente o dia todo.
A unanimidade no lixão são as sacolas plásticas. Há um bolo delas por todos os lados, inclusive nos arredores e nas margens da rodovia, como se um vento forte houvesse empurrado alguns entulhos para as áreas próximas. Mas não, foi alguém que depositou-os ali, ignorando talvez o impacto ambiental daquilo que certamente não será reciclado. Por isso, quando ouvimos falar de sustentabilidade, reciclagem e cultura, tudo é dito em nome daquele cenário triste e sofrido que é o nosso lixão - assim como o de outras cidades.
Se a humanidade é capaz de desenvolver foguetes, sinfonias, remédios e estratégias para vender mais, devemos reconhecer que estamos muito atrasados no que tange ao cuidado com o nosso planeta.
O trabalho de enterrar o lixo acumulado até agora é apenas um esforço paliativo, já que mais toneladas de lixo continuarão sendo despejadas nas margens da MS-240, e outras pessoas continuarão tirando dali o seu sustento, e a brisa tóxica continuará ardendo...
A única pessoa com quem conversei no local foi um operador de uma das máquinas alugadas pela Prefeitura. Enquanto aguardava debaixo do sol a chegada da marmita, o trabalhador divagou sobre a chuva que não vem, expôs uma teoria sobre comunicação global, e não deixou escapar o tema da reciclagem. Bebi um pouco da água que ele me deu e fui embora, tentando encontrar algum morador do local.
Fracassado no meu intento de conhecer mais a fundo aquele pedaço de cidade que ignoramos, volto pra casa com o corpo cheio de poeira e com a cabeça longe, pensando se as pessoas se importam com esse tipo de coisa, ou se tudo faz parte do "projeto de Deus", segundo afirmam os mais confiantes.
Realmente não posso acreditar numa ou noutra coisa, e também sei que todo nosso sonho de consumo invariavelmente há de terminar ali, indicando que o esforço coletivo possui a contradição de criar benefícios, mas também de desenvolver suas mazelas.
Daí vejo a importância da existência da Cooperativa de Reciclagem de Paranaíba (COOPERA) e dos pequenos esforços desenvolvidos em nome da reciclagem e contra o desperdício. Por isso, é importante bater na tecla da reciclagem, e mesmo que atualmente essa palavra tem sido utilizada apenas como slogan de festivais, empresas e governos, espero que algum dia ela seja algo levado muito a sério por todos nós… levada tão a sério que há de mudar até os nossos hábitos corriqueiros.
texto publicado originalmente no jornal O Interativo
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