23 de ago. de 2011

Empório Simão no Imaginário Popular

A pose desajeitada e o olhar vago entre a lente da câmera e o velho balcão. No centro da fotografia, João Alves Pereira está definitivamente interligado à história da cidade que ele viu e ajudou a construir. As prateleiras forradas de "secos e molhados", uma dúzia de cerveja Antarctica dum rótulo antigo, uns dez quilos de sal, dois cachos de banana, salsicha em conserva e até Cotuba, tudo indicando que a cena foi registrada há muito tempo.


Mas ironicamente, o fotógrafo que congelou o momento descuidou-se de um calendário "dependurado" numa das tábuas da prateleira do mercadinho. Assim, o calendário que compõe a cena da fotografia revela caprichosamente apenas dois número: 19 - demonstrando que o momento foi capturado em algum instante do século passado. Essa peculiaridade histórica é apenas mais uma das várias que rondam a pessoa e a lembrança de João Simão, paranaibense da velha-guarda falecido em 2003, aos 87 anos.


A personificação dessa importante figura paranaibense está localizada no coração do Bairro Santo Antônio. O Empório Simão, que leva o cognome imortalizado de seu fundador, está erguido sobre quatro paredes, medindo não mais do que 30 metros quadrados. Com alguns objetos antigos e muitas lendas em torno do ambiente, o pequeno salão comercial do Santo Antônio não possui mais a pompa nem a variedade de produtos de outrora, mas continua a ser um patrimônio histórico de Paranaíba. A inscrição "desde 1965" entre as duas portas de madeira é a data em que o empório, localizado na esquina da avenida Evaristo Pereira Ferreira (filho mais velho de João Simão) com a rua Vicente Barbosa de Moraes, foi registrado em cartório. Porém, a fundação do Empório Simão é muito mais antiga do que 1965, segundo o que me afirmou a simpática Dona Iracy Pereira Ferreira, sétima filha dos nove que o casal formado por João Alves Pereira e Alvina do Carmo Ferreira criou nas terras de Paranaíba-MT.


O local é um convite aberto para quem se lança a vasculhar boas histórias e acontecimentos da cidade. Em menos de uma hora de conversa com Dona Iracy e uma cerveja, é possível renovar o repertório cultural através da própria história do empório, causos de crimes, divagações sobre o comportamento da época e descrições de como era a cidade "naquele tempo", tudo bem fresco na memória de Dona Iracy, herdeira do empório e de suas memórias. Sem se furtar a desenrolar tudo o que sabe sobre os fatos de que se recorda, Dona Iracy conta, como se fosse ontem, num certo tom de romance, a história do assassinato duplo que ocorreu às portas do Empório Simão, em conseqüência de uma briga entre Berico e Abilão, há aproximadamente 42 anos, numa noite pacata no pequeno vilarejo.



A história da briga entre Berico & Abilão



Segundo Dona Iracy, havia rumores de que um caso amoroso estava se firmando entre Abilão e a mãe de Berico. Então, por questões passionais, uma briga de acerto de contas resultou em tiros disparados ali mesmo no empório. Fazendo um paralelo com a morte de Santo Cristo, da música Faroeste Caboclo (Legião Urbana), em seu último momento de vida, Abilão teria proferido as seguintes palavras: "morri mas matei" após disparar seu revólver contra Berico, fazendo assim, justiça com as próprias mãos, antes mesmo que seu algoz pudesse gozar um trago de pinga no balcão do empório, em comemoração à sua vingança pela traição do ex-amigo. Curiosamente, a partir desse fato, Berico & Abilão selaram seus destinos e suas histórias ao morrerem juntos, um matando o outro, permanecendo unidos para sempre no imaginário popular da cidade, o qual mantêm-se preservado nas memórias que o Empório Simão se encarrega de conservar.



Museu permanente


Além das histórias que agrega, o Empório Simão é um importante vestígio da raiz da cultura paranaibense. As janelas e portas de madeira continuam sendo as mesmas desde sua fundação. A modernidade agregou ao pequeno comércio um piso desgastado, a calçada de cimento e o forro, feito de madeira.


No velho balcão, dois adesivos de política mostram a lealdade com que João Simão e sua família honra as alianças e pactos políticos, embora, reconhece Dona Iracy, o envolvimento político e a conseqüente doação de produtos para favorecer campanhas rendeu amargos prejuízos à saúde financeira do empório.


Perguntei se os políticos daquele adesivo visitam regularmente o local, Dona Iracy, com muito orgulho, afirma que as autoridades estão sempre por lá, fazendo uma visita como bons amigos.


Num canto embaixo de uma das janelas, a preferência de Dona Iracy continua sendo a emissora AM, que propaga suas ondas por meio de um rádio de pilha, presente comprado há 40 anos em São Paulo por Dona Maria (irmã mais velha de Dona Iracy), sustentado por uma máquina de costura bem conservada, herança da avó materna de Dona Iracy.


No alto do pilar da direita, um quadro mostra o Seu João Simão segurando um microfone, rodeado de curiosos e uma dupla sertaneja, posando para as câmeras da TV. Segundo me informou Dona Iracy, o quadro registrou a ocasião em que um importante programa de variedades da televisão nacional esteve no empório para gravar com a dupla Monetário & Financeiro. A dupla aparece na foto, mas quem segura o LP autografado é o anfitrião daquele dia.


Por falar em música, João Simão era líder de um grupo de catira, extinto logo após a sua morte. Infelizmente, uma fita de vídeo que continha uma gravação de uma apresentação espontânea do grupo de catira, liderado por João Simão, foi furtada sem nenhuma explicação num dia de descuido ali mesmo no empório. Dona Iracy lamenta a perda histórica, embora ressalta que sua família ainda conserva a tradição da catira nos encontros anuais em Ribeirão Preto-SP.



O último causo


Antes de pagar minha conta, não me furtei em lançar a última pergunta nessa primeira incursão que fiz no local. Há um antigo boato de que, certa madrugada, voltando embriagado do baile, sem a esposa, Seu João Simão teria batido na porta pedindo pra entrar. Dona Alvina, furiosa com o marido, teria dito que não abriria a porta de maneira alguma, forçando seu companheiro a dormir do lado de fora. Reza a lenda que João Simão ameaçou que, se a mulher não abrisse a porta, ele então colocaria fim à própria vida se jogando dentro do poço. Ameaçou mais uma vez e a mulher ignorou sua súplica. Daí, João Simão espertamente pegou um batedor de madeira e jogou dentro do poço. No que o barulho atingiu os ouvidos de Dona Alvina, ela teria abrido a porta correndo para tentar salvar o marido suicida. Nisso, Seu João entrou correndo para dentro de casa, trancou a porta e fez Dona Alvina passar o resto da madrugada do lado de fora. Perguntei a Dona Iracy se isso aconteceu de verdade…


E se você também tem curiosidade em saber dessa e de outras histórias, não deixe de visitar o Empório Simão para saborear um refrigerante, uma cerveja, salgadinhos de balcão ou uma boa história que o local tem pra compartilhar. Um patrimônio da cidade que continua escrevendo sua história.



publicado originalmente no Espaço Por Fora, no jornal O Interativo

Um comentário:

Napa disse...

Muito bom heim Juninho...parabéns !