12 de abr. de 2011

A cultura da árvore quadrada


Não é a primeira vez que escrevo sobre este assunto, tampouco será a última enquanto as arvores quadradas continuarem a perturbar a minha visão na cidade. É preciso chamar a atenção para este fato de muita relevância, pois isso significa que estamos perdendo biodiversidade e qualidade de vida.

A anomalia das árvores quadradas já infestou a cidade. Basta um olhar mais apurado e qualquer um perceberá que boa parte dos cidadãos ignoram a natureza, não se atentam para si próprios, ou seja, não percebem que fazem parte do ecossistema; e nem se atentam para a cidade como um todo também.

Considerando que Paranaíba possui um elevado numero de arvores quadradas, isso nos leva a concluir, antes de tudo, que a cidade possui um elevado numero de arvores da mesma espécie, as quais são podadas predominantemente na forma geométrica em questão. Não temos aqui o hábito de diversificar nas árvores que plantamos: insistimos sempre em repetir a fórmula e copiar aquilo que o vizinho e a cidade inteira fez.

Assim, seguindo aquele fluxo cultural que se arrasta invisível à mente, é possível concluir que as árvores quadradas fazem parte da nossa cultura, indicando, infelizmente, o modo como lidamos com a natureza. Ao podar uma árvore, o cidadão não está somente desperdiçando vida, energia, tempo ou dinheiro, mas está contribuindo para deixar a cidade mais quente do que já é naturalmente. A natureza, em sua perfeição, trabalha de sol a sol para ser como ela é, porém aos olhos paranaibenses, a coisa anda errada... e assim cada vez mais penamos sob o calor de 40 graus, enquanto as árvores renascem após cada corte brutal e sem sentido.

Alguns poderão argumentar a respeito dos fios de eletricidade que muitas vezes se chocam com as árvores. Tudo bem, não é seguro deixar uma árvore em contato com fios de alta tensão. Mas o problema não são essas árvores, mas sim aquelas que ficam em meio aos canteiros das avenidas. Por exemplo: a avenida Três Lagoas possui árvores quadradas em toda a sua extensão, no entanto sobre essas árvores não há fios de energia. Enquanto os comerciantes investem em algo sem futuro - a poda quadrada - as árvores que não cresceram deixam de fazer sombra no asfalto que, por sua vez, recebe toda a energia do sol, fazendo nosso clima urbano ficar muito desagradável, diminuindo a qualidade de vida de todos os cidadãos.

Portanto, essa fórmula só pode dar errado a médio e a longo prazo. Uma cidade com todas estas culturas enraizadas (desprezo pelo verde, alienação, falta de cidadania) jamais conseguirá alcançar qualquer excelência em qualidade de vida e/ou desenvolvimento, já que culturalmente estamos cegos àquilo que está escancarado aos olhos cotidianamente.

A solução? Uma campanha série e muito bem feita sobre reurbanização e reflorestamento urbano. Pois, se deus existe mesmo, ele é a folha da árvore que não se deixa viver no chão de Paranaíba.


Ailton Junior; artista, escritor, professor, músico, compositor, agitador cultural e intelectual.

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